8. MUNDO 21.8.13

DEMOCRACIA EM QUEDA LIVRE
Massacre de apoiadores do presidente deposto Mohamed Mursi deixa um rastro de destruio e violncia no Egito. A volta da ditadura nunca pareceu uma ameaa to real
Mariana Queiroz Barboza

ATAQUE E DEFESA  - Reprteres correm durante ofensiva militar contra acampamento da Irmandade Muulmana. Dois jornalistas morreram 

H menos de dois meses, no dia 3 de julho, uma festa levou milhares de egpcios s ruas do Cairo para comemorar a deposio do presidente Mohamed Mursi, da Irmandade Muulmana, sob um cu decorado com fogos de artifcio. A surpreendente celebrao do golpe militar, porm, no intimidou os apoiadores do antigo presidente. Na semana passada, diante do aumento dos protestos que pediam o retorno de Mursi ao poder, os militares decidiram agir  e o que se viu foram chocantes cenas de barbrie. Os corpos envolvidos por lenis manchados de sangue mostravam que o caminho que levaria o Egito  democracia definitivamente no era aquele que o Exrcito, encabeado pelo general Abdul Fattah al-Sisi, seguia. O massacre comeou na quarta-feira 14, pouco depois do nascer do sol. Primeiro, a ofensiva militar atacou um grupo reunido na Praa al-Nahda, prxima  Universidade do Cairo. A investida resultou em 87 mortos. Depois, a mesquita de Rabia al-Adawiya, no distrito de Nasr City, foi cercada por tropas no solo e no ar. Na ao pereceram 202 pessoas. Tudo transmitido ao vivo pela tev. At a sexta-feira 16, o saldo de mortos, segundo o ministro da Sade, era de 638. Extraoficialmente, dizia-se que a estimativa era tmida. A contagem deve aumentar nos prximos dias.

RESISTNCIA - Carro da polcia  empurrado de ponte por manifestantes islamitas no Cairo

A situao forou o vice-presidente do Egito, Mohamed ElBaradei, premiado com o Nobel da Paz em 2005, a renunciar. Ficou difcil, para mim, segurar a responsabilidade por decises com as quais no concordo e cujas consequncias eu temo, declarou. ElBaradei foi muito criticado por ter apoiado a deposio de Mursi e aceitado compor um governo endossado pelos militares, responsveis por 60 anos de ditadura no pas. Depois do golpe, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, condenou o uso da fora pelo governo e cancelou exerccios militares conjuntos entre os dois pases, aliados histricos, mas no cortou a ajuda financeira anual de US$ 1,3 bilho. Na sexta-feira 16, o Conselho de Segurana da Organizao das Naes Unidas fez uma reunio de emergncia, em que pediu pela mxima conteno entre as partes. O presidente interino Adli Mansour decretou estado de emergncia, fechou bancos, interrompeu os servios de trem e imps toque de recolher em vrias cidades, paralisando a j combalida economia egpcia. A General Motors fechou as operaes no pas por tempo indeterminado por causa da violncia que se espalhou para alm da capital, em cidades como Alexandria, Giz e Suez. Militantes islmicos bloquearam estradas que circundam Cairo e depredaram igrejas crists, prdios do governo e postos de guarda. A situao se agravou quando o ministro do Interior disse que as foras de segurana estavam autorizadas a usar armas letais para se proteger  segundo ele, ao menos, 43 oficiais morreram.

O CHEFE - Abdul Fattah al-Sisi, general das Foras Armadas: o Exrcito, responsvel por 60 anos de ditadura no Egito, est cada vez mais poderoso

Desde que Mursi foi deposto num contexto de caos econmico e crescente autoritarismo, os membros da Irmandade Muulmana tm sido perseguidos. O grupo poltico-religioso, que surgiu em 1928 e demonstrou sua fora poltica ao vencer as eleies presidenciais e legislativas de 2012, atua em diversos extratos sociais e mantm forte influncia junto a uma boa parcela da populao. Mas, na contramo da via democrtica, seus lderes prometeram resistncia ao novo governo e convocaram mais protestos, num discurso que enaltece os mrtires. O embate entre o Estado do Egito e o Estado paralelo da Irmandade Muulmana alcanou uma fase existencial em que, para um sobreviver, o outro precisa ir embora, ao menos ideolgica e organizacionalmente, disse Wael Nawara, escritor e ativista egpcio, em artigo ao site Al-Monitor. Nawara argumenta que, desde a queda do ditador Hosni Mubarak, houve vrios pequenos acampamentos na Praa Tahrir e em outros pontos do Cairo sem que isso desencadeasse violncia. Mas os campos de Rabia al-Adawiya e al-Nahda foram o estopim da briga entre dois Estados que, h 85 anos, tentam governar o mesmo povo, na mesma terra. A Irmandade chegou a um ponto em que considera esta a sua ltima batalha, ento  venc-la ou morrer como mrtir, declarou Nawara.

VTIMAS - Familiares choram diante de corpos enfileirados na mesquita  de El-Iman, no Cairo. Ao menos, 638 civis foram mortos 

O acirramento da disputa entre os dois lados compromete o restabelecimento do processo democrtico, como querem os egpcios que marcharam contra o regime de Mubarak na Primavera rabe, e joga o pas num longo perodo de escurido. Transies democrticas, mesmo nas melhores circunstncias, so assuntos difceis e dolorosos, disse, em relatrio, Shadi Hamid, diretor de pesquisa do Instituto Brookings em Doha, no Qatar. Mas j no faz mais sentido dizer que o Egito est nessa transio. Segundo o especialista, as Foras Armadas e outros braos do Estado se tornaram instituies explicitamente partidrias, o que s aprofunda o conflito num pas extremamente polarizado. Isso justificaria uma guerra permanente contra inimigos internos e externos. No h motivo para estar surpreso, porque  assim que um golpe militar se parece, escreveu Hamid. 

